A
TOCA DO SIRI
Carlos
Eleutério Nonato da Silva, natural do pequeno município Guaramiranga, o menor
do estado do Ceará, mais conhecido como Carlos Cabeça, não pelo diâmetro de
amplo raio da mesma, mas, por sua inteligência e capacidade de criar algo grande
a partir de pequenos fragmentos ou do nada.
Cabeça,
apesar da imperiosa redundância, pode ser considerado um “Crânio”, um gênio
nato, se levadas em consideração a precariedade da região onde nasceu e a
condição miserável em que cresceu, o termo mais adequado seria “Milagre da
natureza”, coisa de Deus.
Caçula
de treze irmãos, dos quais apenas três sobreviveram a partos em ambiente de
total insalubridade, desnutrição, sede, fome, ausência de higiene, enfim,
sobreviventes do caos, Carlos desde os primeiros passos dados (apenas aos dois
anos de idade), já demonstrava ser uma criança diferenciada, apesar dos poucos
e limitados parâmetros de comparação, pela sua precoce capacidade de criar
brinquedos com pedaços de ossos, dentes, folhas e galhos secos e carcaças de
insetos, com os quais reproduzia sem jamais ter visto, carrinhos, bonecos,
barcos e aviões.
Aos
sete anos Carlos mais se assemelhava a um ET, uma cabeça enorme, muito
desproporcional ao corpo raquítico que a sustentava, corria e brincava naquela
terra seca e estéril daquele vale árido repleto de rachaduras, onde a mais de
quinze anos não caia uma única gota de chuva.
Um
dia surgiu no horizonte cinzento um ponto escuro seguido de um rastro de
poeira, que se aproximou rapidamente do casebre tosco dos Nonato da Silva, era
o carro de uma emissora de TV de Fortaleza que trazia um repórter, um
cinegrafista e um arqueólogo professor da Universidade Federal, que tentava
localizar um sítio arqueológico que tinha coordenadas coincidentes com aquele
local.
De
olhos arregalados Carlos e seus irmãos observavam admirados o veículo coberto
de poeira com o logotipo da emissora, pois, jamais haviam visto um nem por
foto, somente viram algo parecido entre os brinquedos criados pelo irmão.
Pararam
para pedir informações, mas, ficaram chocados diante da situação precária em
que vivia aquela família, se sentiram tocados pela miséria absoluta daquelas
pessoas, principalmente das crianças completamente imundas e magras.
Ainda
muito emocionados distribuíram suas provisões com aquela família, montaram ali
um acampamento para passar o restante do dia e a noite, onde conversaram,
mostraram imagens através dos monitores e captaram o sinal da emissora,
proporcionando aos Nonato da Silva a primeira oportunidade de ver TV, o que
fizeram até o final da programação.
No
dia seguinte, ainda sensibilizado o repórter resolveu fazer uma matéria sobre
as condições em que vivia aquela família, até que Carlos puxou o jovem repórter
pelo braço e o conduziu até um dos quatro cômodos do barraco, para lhe mostrar
suas criações que fizeram o queixo o jornalista cair, tal era perfeição e
riqueza de detalhes dos pequenos objetos, apesar das condições de dos materiais
utilizados.
Chamou
todos da equipe e o arqueólogo para verem aquilo, deixando-os boquiabertos,
principalmente o professor que imediatamente identificou vestígios de fósseis
nos dentes e fragmentos de ossos e descobriu que o sítio que procurava
correspondia a toda a área pertencente aos Nonato da Silva.
A
desapropriação da área para tombamento do sítio arqueológico rendeu uma pequena
fortuna aquela até então era uma miserável família, que orientada pelo
professor aplicou e empregou bem os dividendos, na compra de imóveis que
fizeram uma boa base de renda, suficiente para proporcionar conforto e segurança
aos familiares de Carlos.
Aos
dezoito anos Carlos Cabeção, como já era conhecido, já cursava faculdade de
Direito, se formando aos vinte e três e passando de primeira na prova da OAB,
sendo aprovado em seguida no concurso para Juiz de Vara do estado do Ceará.
Claro
que uma mente tão brilhante e criativa não poderia deixar de emprestar sua
inventividade à gastronomia, “Cabeção” criou inúmeros pratos com receitas que
vão das mais simples, as da mais alta gastronomia, especialmente as preparadas
com carne de siri, o crustáceo predileto deste gênio.
No
ano seguinte a sua posse como Juiz da 7ª Vara Cível, inaugurou em Fortaleza a
TOCA DO SIRI, bar e restaurante, reduto de juízes, promotores e profissionais
do Direito em geral, além dos intelectuais e artistas do Ceará e Região
Nordeste, onde hoje é conhecido carinhosamente como “Chef dotô siri Cabeção”,
com aquele toque peculiar do humor cearense.
MOQUECA DE SIRI
MOLE:
Ingredientes: -350g de carne de siri, limpa e
pré-cozida; - 3 colheres sopa de azeite de oliva extra-virgem; -1 cebola média
cortada em rodelas; -2 dentes de alho picados; -2 tomates grandes sem pele e
sem sementes, picados; -200 ml de leite de coco; -2 colheres de sopa de azeite
de dendê; - coentro e sal qb.
Preparo: Doure o alho e a cebola no azeite, acrescente os tomates picados, o leite
de coco e o azeite de dendê, junte o coentro, acerte o sal e deixe engrossar, acrescente
o siri, mexa e deixe no fogo por cerca de 2 minutos, sirva com arroz branco e
um vinho branco moscato seco.